quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Entre o Movimento e o Monumento

Por Adenilson Ribeiro de Oliveira

Quando foi criada a Igreja, esta se configurava como o movimento de Jesus animado pelo Espírito Santo, sendo livre e indômita como o vento. Aos poucos, tornou-se um monumento cuja importância passou a ser guardar a memória de um tempo passado. Um monumento que precisava ser preservado a qualquer preço, mesmo se fosse necessário atropelar alguns irmãos e deixá-los caídos pelo caminho. Por isso, há tantas pessoas que já passaram por igrejas e saíram feridas, desiludidas, fragilizadas. A Igreja virou uma instituição, um monumento.
      Uma tendência natural das instituições é ignorar as críticas que lhes são feitas. Quando um de seus membros ou um grupo deles assume um posicionamento crítico, tais indivíduos geralmente são rotulados como desviantes ou rebeldes e passam a ser alvo de exclusões e de isolamento dentro da própria comunidade. Por vezes, sem terem o direito de serem ouvidos. Isto porque, quando a Igreja assume ares de instituição, fica tão perversa e ensimesmada quanto qualquer outra instituição. Sua luta e motivo prioritário passam a ser, não mais servir a Deus e às pessoas, mas a preservação de si mesma.
      Neste sentido, a ambição da Igreja–instituição passou a ser imitar o modelo institucional vigente no mundo: pastores se tornaram executivos especialistas em administração e marketing para cuidar da imagem de sua organização, profissionais bem preparados para escolher o público-alvo adequado para a igreja ser mais assertiva na captação de novos membros, pregações que não mencionam a cruz de Cristo para acariciar o ego das pessoas e transformálas em “clientes” cativos e acomodados.
      Assim, a igreja adaptou-se, tornou-se funcional ao mundo e sem forças para contestá-lo. Contentou-se em ser apenas mais uma instituição religiosa, procurando defender ferozmente seu lugar no concorrido mercado religioso. Por outro lado, ao mesmo tempo em que foi ganhando projeção no mundo, foi necessário abrir mão da cruz de Cristo e, com isso, sua pregação perdeu o impacto espiritual e moral na sociedade (cf. Mt 5:13).
      Quando os primeiros missionários chegaram ao Brasil em meados do século XIX, somente o Dr. Kalley tinha uma proposta missionária diferente do modelo denominacional que ele vira na Europa e nos Estados Unidos. Todos os demais missionários chegaram ao Brasil trazendo um projeto já previamente definido. O Dr. Kalley, ao contrário, tinha como objetivo organizar igrejas, comunidades de crentes, não uma denominação. Infelizmente os continuadores do trabalho do Dr. Kalley no Brasil não captaram essa sutileza da compreensão missionária e resolveram imitar o status hegemônico e criaram uma denominação. Talvez seja hora de começarmos a abandonar o monumento - estático e excludente por si mesmo - e deixar-nos conduzir pelo movimento indomável do Espírito.

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